O governo do presidente Donald
Trump estuda flexibilizar temporariamente as restrições às importações de carne
bovina nos Estados Unidos em uma tentativa de conter a inflação de alimentos no
país. A medida, revelada pelo The Wall Street Journal e confirmada pelo
Politico, prevê a suspensão, por 200 dias, das atuais limitações de cotas
aplicadas às compras externas de carne.
A iniciativa ocorre em meio à
forte alta dos preços da carne bovina no mercado americano. Segundo relatório
do Citibank citado por analistas no Brasil, o preço da carne moída acumulou
aumento de 40% nos últimos cinco anos nos Estados Unidos, pressionando o custo
de vida e ampliando o impacto político da inflação sobre o eleitorado
americano.
A possível abertura tende a
beneficiar frigoríficos brasileiros exportadores, especialmente Minerva Foods,
JBS e Marfrig — atualmente integrada à operação da BRF na MBRF. O mercado
reagiu rapidamente à notícia. As ações da Minerva subiram 4,63% na B3, encerrando
o pregão a R$ 4,29.
Analistas do Citi avaliam que
a Minerva deve ser a empresa mais favorecida pelo eventual afrouxamento das
cotas devido ao perfil altamente exportador da companhia. Já JBS e Marfrig,
apesar de possuírem operações industriais nos Estados Unidos e utilizarem
importações como parte da estratégia local, também podem se beneficiar da maior
flexibilidade comercial.
Para José Carlos Hausknecht,
sócio da consultoria MB Agro, a medida representa uma oportunidade relevante
para o setor pecuário brasileiro. “Essa abertura, para o Brasil, é muito
importante”, afirmou. Segundo ele, a flexibilização tende a enfrentar resistência
dos produtores americanos, especialmente em um momento de queda histórica do
rebanho bovino nos Estados Unidos.
Dados do Departamento de
Agricultura dos EUA (USDA) mostram que o rebanho americano atingiu o menor
nível em 75 anos, reflexo de secas prolongadas em regiões produtoras e
dificuldades na recomposição do plantel. Historicamente maiores produtores
mundiais de carne bovina desde a década de 1960, os Estados Unidos perderam
espaço para o Brasil, que assumiu em 2025 a liderança global na produção do
produto, segundo estimativas do USDA.
O desequilíbrio entre oferta e
demanda ampliou a dependência americana das importações. Em 2021, cerca de 10%
da carne consumida nos EUA era importada. No ano passado, essa participação
chegou a 20%, de acordo com reportagem publicada pelo Wall Street Journal.
Atualmente, os Estados Unidos
utilizam um sistema de cotas para controlar as importações. Países fornecedores
tradicionais, como Austrália, Nova Zelândia, Argentina e Uruguai, possuem
limites próprios de exportação com tarifas reduzidas. O Brasil participa da
categoria destinada a “outros países”, limitada a 65 mil toneladas anuais com
tarifa reduzida. Acima desse volume, incide uma tarifa superior a 26%.
Mesmo com a cobrança
adicional, o Brasil já vinha ampliando as vendas ao mercado americano diante da
forte demanda local. Em 2025, as exportações brasileiras de carnes bovinas
frescas, congeladas e resfriadas para os EUA somaram 126 mil toneladas, segundo
dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Apenas
nos quatro primeiros meses deste ano, o mesmo volume já foi alcançado.
“Se zerar mesmo todo mundo, o
Brasil vai nadar de braçada”, afirmou Hausknecht, ao comentar a possibilidade
de suspensão temporária das cotas.
O movimento americano ocorre
em paralelo ao endurecimento das regras de importação na China, principal
destino da carne bovina brasileira. Pequim anunciou no fim do ano passado um
sistema de controle de cotas para tentar sustentar os preços pagos aos produtores
locais.
Nesse cenário, parte da carne
que teria como destino o mercado chinês pode ser redirecionada aos Estados
Unidos. Para o Citi, isso tende a reduzir a possibilidade de queda dos preços
no mercado doméstico brasileiro, uma vez que o aumento da demanda externa
absorveria parte do excedente exportável.
“A demanda mais forte dos EUA
ajuda a absorver parte do excedente potencial brasileiro, reduzindo o risco de
que as carnes redirecionadas da China inundassem o mercado doméstico”,
afirmaram os analistas do banco em relatório.
Por O Correio de Hoje

Nenhum comentário:
Postar um comentário