Os presidentes Xi Jinping e
Vladimir Putin reforçaram nesta quarta-feira 20, a aproximação entre China e
Rússia ao assinarem cerca de 40 acordos de cooperação econômica e estratégica
durante encontro em Pequim, em meio à escalada das tensões geopolíticas
envolvendo as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio e ao aumento da pressão dos
Estados Unidos sobre os dois países.
A reunião marcou os 25 anos do
tratado de amizade e cooperação entre Moscou e Pequim e consolidou o
aprofundamento da parceria bilateral em áreas como comércio, tecnologia,
energia, infraestrutura ferroviária e inteligência artificial.
Durante o encontro no Grande
Salão do Povo, Xi fez críticas indiretas à atuação americana no cenário
internacional e alertou para o risco de deterioração da ordem global.
“O unilateralismo e o
hegemonismo são profundamente prejudiciais, e o mundo corre o risco de voltar à
lei da selva”, afirmou o líder chinês.
Putin, por sua vez,
classificou a relação bilateral como “sem precedentes” e afirmou que os dois
países construíram um sistema de comércio protegido das oscilações externas e
das pressões do mercado internacional.
“Construímos um sistema
estável de comércio mútuo que está protegido de influências externas e de
tendências negativas dos mercados globais”, disse o presidente russo.
O encontro ocorreu em meio à
ampliação das incertezas geopolíticas provocadas pelos conflitos no Oriente
Médio. Segundo a agência estatal chinesa Xinhua, os líderes discutiram a
situação regional após os recentes ataques envolvendo Irã, Israel e os Estados
Unidos.
Xi defendeu um cessar-fogo
imediato e afirmou que a retomada das hostilidades agravaria ainda mais a
instabilidade regional.
“Um cessar-fogo abrangente é
imperativo, retomar a guerra é ainda mais inaceitável, e aderir às negociações
é particularmente importante”, afirmou.
Horas antes do encontro, o
presidente americano Donald Trump havia ameaçado retomar ataques ao Irã caso
não haja avanço nas negociações para encerramento do conflito.
A visita de Putin a Pequim
ocorreu com forte simbolismo diplomático. Xi recebeu o presidente russo na
Praça da Paz Celestial com honras de Estado, incluindo salva de 21 tiros e
execução dos hinos nacionais, repetindo protocolo semelhante ao utilizado dias
antes durante encontro com Trump.
Além da agenda política, a
aproximação sino-russa reforça a crescente dependência econômica de Moscou em
relação à China após as sanções impostas pelo Ocidente desde a invasão da
Ucrânia.
Segundo dados citados durante
o encontro, o comércio bilateral alcançou US$ 240 bilhões no último ano,
equivalente a cerca de R$ 1,2 trilhão. Putin destacou ainda o papel da Rússia
como fornecedora estratégica de energia para a economia chinesa.
Entre os temas discutidos
esteve o projeto do gasoduto Power of Siberia 2, considerado prioritário pelo
Kremlin para ampliar as exportações russas de gás natural ao mercado asiático.
Embora autoridades russas afirmem que os principais parâmetros já foram
definidos, o projeto não foi citado publicamente durante a cerimônia de
assinatura dos acordos.
A guerra no Oriente Médio e os
riscos envolvendo o Estreito de Ormuz também ampliaram a relevância energética
da parceria entre Moscou e Pequim. O Kremlin avalia que a volatilidade nos
preços globais de energia fortalece a posição russa nas negociações comerciais
com a China.
A comitiva russa em Pequim
reúne executivos e autoridades ligados a setores estratégicos, incluindo
representantes da Gazprom, Rosatom e Roscosmos.
Apesar da aproximação, Pequim
mantém cautela diplomática diante da guerra na Ucrânia. A China evita condenar
diretamente Moscou, mas continua defendendo publicamente princípios ligados à
soberania nacional e à ordem internacional baseada na ONU, em tentativa de
preservar sua imagem internacional.
Segundo a Bloomberg, mais de
90% da tecnologia sancionada importada pela Rússia passa atualmente pela China.
Pequim nega fornecer armamentos ao conflito e afirma manter controle rígido
sobre exportações de uso dual.
Para analistas internacionais,
o encontro reforça a consolidação de um eixo político e econômico alternativo
ao protagonismo americano, em um cenário de crescente fragmentação geopolítica
global.
“Putin não poderia continuar a
travar a guerra na Ucrânia sem o apoio sistemático que a China vem fornecendo à
máquina de guerra russa”, afirmou Henrietta Levin. “Em Pequim, a expectativa é
que o líder russo busque mais apoio material e financeiro para contornar
sanções ocidentais.”
Por O Correio de Hoje

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