Um medicamento experimental
desenvolvido pela farmacêutica GSK apresentou resultados promissores no
tratamento da hepatite B crônica e pode representar um avanço importante no
combate à doença. Estudos clínicos de fase avançada mostraram que o bepirovirsen
foi capaz de alcançar a chamada cura funcional em aproximadamente 20% dos
pacientes tratados, índice significativamente superior ao observado com as
terapias atualmente disponíveis.
Os resultados foram
apresentados nesta quinta-feira durante o congresso da Associação Europeia para
o Estudo do Fígado e publicados simultaneamente na revista científica New
England Journal of Medicine. O desempenho do medicamento chama atenção porque
os tratamentos atualmente utilizados conseguem atingir a cura funcional em
apenas cerca de 1% dos pacientes com hepatite B crônica.
Nos estudos, os participantes
que receberam o bepirovirsen registraram taxas de cura funcional entre 19% e
20%. Nesse cenário, o vírus torna-se indetectável, permanece inativo e
completamente suprimido, reduzindo de forma significativa os riscos associados
à infecção.
Outro dado considerado
relevante pelos pesquisadores foi a manutenção dos resultados mesmo após a
interrupção de outras terapias utilizadas pelos pacientes. Entre os voluntários
que receberam placebo, nenhum apresentou resultados semelhantes.
Especialistas apontam que a
eliminação funcional do vírus pode reduzir a ocorrência de complicações graves,
como cirrose hepática, lesões progressivas no fígado e câncer hepático. Por
esse motivo, mesmo taxas de cura entre 15% e 20% já são consideradas um avanço
expressivo em relação às opções terapêuticas disponíveis atualmente.
A hepatite B é uma infecção
viral que afeta o fígado e continua sendo um dos principais desafios de saúde
pública em escala global. Embora exista vacina eficaz contra a doença, milhões
de pessoas ainda convivem com formas crônicas da infecção.
Segundo estimativas da
Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 254 milhões de pessoas
vivem atualmente com hepatite B crônica em todo o mundo. Em muitos casos, o
organismo consegue eliminar naturalmente o vírus após a infecção inicial.
Entretanto, parte dos pacientes desenvolve uma infecção persistente que pode
durar toda a vida.
A transmissão ocorre
principalmente pelo contato com sangue ou fluidos corporais contaminados. O
vírus também apresenta alta resistência fora do organismo, podendo sobreviver
em superfícies por até uma semana.
Os resultados foram
considerados animadores por especialistas da área. Em editorial publicado junto
ao estudo, Anna S. Lok, professora de hepatologia da Faculdade de Medicina da
Universidade de Michigan, classificou os achados como um avanço importante no
desenvolvimento de novas terapias para a doença.
“Os resultados representam um
‘grande passo em direção a uma cura para a infecção por hepatite B’”, escreveu
a pesquisadora.
Ao mesmo tempo, ela ressaltou
que os dados devem ser interpretados com cautela, já que os estudos não
incluíram alguns grupos específicos de pacientes, como aqueles que já
apresentam cicatrização avançada do fígado. Por isso, segundo a especialista,
ainda não é possível generalizar os resultados para toda a população afetada
pela doença.
Além dos benefícios clínicos,
pesquisadores destacam os impactos sociais e emocionais associados à cura
funcional. A possibilidade de eliminar a atividade viral reduz não apenas o
risco de complicações futuras, mas também o estigma frequentemente enfrentado
por pessoas diagnosticadas com hepatite B.
Para Melanie Paff,
vice-presidente e líder de desenvolvimento de medicamentos do programa de
hepatite B da GSK, esse aspecto representa um dos principais ganhos para os
pacientes. “Estamos tentando resolver a sua infecção para que o paciente possa
realmente dizer: ‘Eu não sou mais infeccioso. Eu não tenho mais o vírus da
hepatite B. Eu não tenho mais que viver sob o estigma e todas as questões que
vêm com isso’”, disse em entrevista.
O bepirovirsen é administrado
por meio de injeções subcutâneas semanais durante um período de seis meses. A
expectativa da GSK é que o medicamento se torne um dos principais produtos da
companhia nos próximos anos. A farmacêutica britânica estima que as vendas
anuais do tratamento possam alcançar até US$ 2,7 bilhões até 2031, caso os
resultados continuem positivos nas próximas etapas de desenvolvimento e
aprovação regulatória.
Apesar do potencial
demonstrado, os estudos também identificaram efeitos adversos relacionados ao
uso da medicação. A maioria dos participantes apresentou reações no local da
aplicação das injeções, consideradas esperadas para esse tipo de tratamento.
Além disso, aproximadamente 7%
dos pacientes registraram eventos adversos graves, incluindo alterações
laboratoriais compatíveis com sinais de lesão hepática. Os pesquisadores
destacam que o perfil de segurança continuará sendo acompanhado nas próximas fases
de investigação clínica.
Paralelamente, a GSK já conduz
novos estudos que combinam o bepirovirsen com outros medicamentos utilizados no
tratamento da hepatite B. A estratégia busca reduzir ainda mais os níveis do
antígeno de superfície do vírus e ampliar as taxas de cura funcional observadas
até agora.
Segundo Melanie Paff, a meta é
tornar o tratamento eficaz para um número maior de pacientes. “O objetivo é
expandir a população de pacientes para todos aqueles que estão em tratamento, e
vamos alcançar taxas mais altas de cura funcional”, disse.
Os resultados reforçam o
esforço internacional para desenvolver terapias mais eficazes contra a hepatite
B crônica, doença que continua afetando milhões de pessoas mesmo diante da
disponibilidade de vacinas. Caso os estudos futuros confirmem os dados atuais,
o bepirovirsen poderá representar uma das maiores mudanças no tratamento da
enfermidade nas últimas décadas.
Por O Correio de Hoje

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