sexta-feira, 29 de maio de 2026

SAÚDE: Novo remédio cura hepatite B em 20%

Um medicamento experimental desenvolvido pela farmacêutica GSK apresentou resultados promissores no tratamento da hepatite B crônica e pode representar um avanço importante no combate à doença. Estudos clínicos de fase avançada mostraram que o bepirovirsen foi capaz de alcançar a chamada cura funcional em aproximadamente 20% dos pacientes tratados, índice significativamente superior ao observado com as terapias atualmente disponíveis.

Os resultados foram apresentados nesta quinta-feira durante o congresso da Associação Europeia para o Estudo do Fígado e publicados simultaneamente na revista científica New England Journal of Medicine. O desempenho do medicamento chama atenção porque os tratamentos atualmente utilizados conseguem atingir a cura funcional em apenas cerca de 1% dos pacientes com hepatite B crônica.

Nos estudos, os participantes que receberam o bepirovirsen registraram taxas de cura funcional entre 19% e 20%. Nesse cenário, o vírus torna-se indetectável, permanece inativo e completamente suprimido, reduzindo de forma significativa os riscos associados à infecção.

Outro dado considerado relevante pelos pesquisadores foi a manutenção dos resultados mesmo após a interrupção de outras terapias utilizadas pelos pacientes. Entre os voluntários que receberam placebo, nenhum apresentou resultados semelhantes.

Especialistas apontam que a eliminação funcional do vírus pode reduzir a ocorrência de complicações graves, como cirrose hepática, lesões progressivas no fígado e câncer hepático. Por esse motivo, mesmo taxas de cura entre 15% e 20% já são consideradas um avanço expressivo em relação às opções terapêuticas disponíveis atualmente.

A hepatite B é uma infecção viral que afeta o fígado e continua sendo um dos principais desafios de saúde pública em escala global. Embora exista vacina eficaz contra a doença, milhões de pessoas ainda convivem com formas crônicas da infecção.

Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), aproximadamente 254 milhões de pessoas vivem atualmente com hepatite B crônica em todo o mundo. Em muitos casos, o organismo consegue eliminar naturalmente o vírus após a infecção inicial. Entretanto, parte dos pacientes desenvolve uma infecção persistente que pode durar toda a vida.

A transmissão ocorre principalmente pelo contato com sangue ou fluidos corporais contaminados. O vírus também apresenta alta resistência fora do organismo, podendo sobreviver em superfícies por até uma semana.

Os pesquisadores observaram ainda que determinados grupos de pacientes responderam melhor ao tratamento. Entre aqueles que apresentavam níveis mais baixos do antígeno de superfície da hepatite B antes do início da terapia, a taxa de cura funcional alcançou 26%.

Os resultados foram considerados animadores por especialistas da área. Em editorial publicado junto ao estudo, Anna S. Lok, professora de hepatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Michigan, classificou os achados como um avanço importante no desenvolvimento de novas terapias para a doença.

“Os resultados representam um ‘grande passo em direção a uma cura para a infecção por hepatite B’”, escreveu a pesquisadora.

Ao mesmo tempo, ela ressaltou que os dados devem ser interpretados com cautela, já que os estudos não incluíram alguns grupos específicos de pacientes, como aqueles que já apresentam cicatrização avançada do fígado. Por isso, segundo a especialista, ainda não é possível generalizar os resultados para toda a população afetada pela doença.

Além dos benefícios clínicos, pesquisadores destacam os impactos sociais e emocionais associados à cura funcional. A possibilidade de eliminar a atividade viral reduz não apenas o risco de complicações futuras, mas também o estigma frequentemente enfrentado por pessoas diagnosticadas com hepatite B.

Para Melanie Paff, vice-presidente e líder de desenvolvimento de medicamentos do programa de hepatite B da GSK, esse aspecto representa um dos principais ganhos para os pacientes. “Estamos tentando resolver a sua infecção para que o paciente possa realmente dizer: ‘Eu não sou mais infeccioso. Eu não tenho mais o vírus da hepatite B. Eu não tenho mais que viver sob o estigma e todas as questões que vêm com isso’”, disse em entrevista.

O bepirovirsen é administrado por meio de injeções subcutâneas semanais durante um período de seis meses. A expectativa da GSK é que o medicamento se torne um dos principais produtos da companhia nos próximos anos. A farmacêutica britânica estima que as vendas anuais do tratamento possam alcançar até US$ 2,7 bilhões até 2031, caso os resultados continuem positivos nas próximas etapas de desenvolvimento e aprovação regulatória.

Apesar do potencial demonstrado, os estudos também identificaram efeitos adversos relacionados ao uso da medicação. A maioria dos participantes apresentou reações no local da aplicação das injeções, consideradas esperadas para esse tipo de tratamento.

Além disso, aproximadamente 7% dos pacientes registraram eventos adversos graves, incluindo alterações laboratoriais compatíveis com sinais de lesão hepática. Os pesquisadores destacam que o perfil de segurança continuará sendo acompanhado nas próximas fases de investigação clínica.

Paralelamente, a GSK já conduz novos estudos que combinam o bepirovirsen com outros medicamentos utilizados no tratamento da hepatite B. A estratégia busca reduzir ainda mais os níveis do antígeno de superfície do vírus e ampliar as taxas de cura funcional observadas até agora.

Segundo Melanie Paff, a meta é tornar o tratamento eficaz para um número maior de pacientes. “O objetivo é expandir a população de pacientes para todos aqueles que estão em tratamento, e vamos alcançar taxas mais altas de cura funcional”, disse.

Os resultados reforçam o esforço internacional para desenvolver terapias mais eficazes contra a hepatite B crônica, doença que continua afetando milhões de pessoas mesmo diante da disponibilidade de vacinas. Caso os estudos futuros confirmem os dados atuais, o bepirovirsen poderá representar uma das maiores mudanças no tratamento da enfermidade nas últimas décadas.

Por O Correio de Hoje

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