Um estudo apresentado na
última semana durante o Congresso Anual da Sociedade Americana de Oncologia
Clínica (ASCO, na sigla em inglês), considerado o principal evento mundial da
área, identificou uma associação entre o diagnóstico de insônia primária e um
risco mais elevado de desenvolvimento de alguns tipos de câncer antes dos 50
anos. A pesquisa foi conduzida por cientistas do Centro de Câncer MD Anderson,
nos Estados Unidos, e utilizou dados de mundo real extraídos de um dos maiores
bancos de informações médicas.
Os resultados chamaram a
atenção da comunidade científica por apontarem uma possível relação entre
alterações do sono e o aumento da incidência de tumores em adultos mais jovens,
faixa etária que já vem registrando crescimento expressivo nos diagnósticos
oncológicos nas últimas décadas. Para chegar às conclusões, os pesquisadores
recorreram ao TriNetX, plataforma que reúne informações de prontuários
eletrônicos provenientes de mais de 70 organizações de saúde norte-americanas.
Foram avaliados dados de 413.116 adultos com idade entre 18 e 50 anos que
receberam diagnóstico de insônia primária entre 25 de janeiro de 2021 e 25 de
janeiro de 2026.
A insônia primária é
caracterizada pela dificuldade persistente para dormir sem que o problema
esteja relacionado a fatores externos ou a outras condições médicas, como uso
de medicamentos, transtornos psiquiátricos ou doenças associadas. Os
pesquisadores acompanharam os registros para identificar casos de câncer
diagnosticados entre um e cinco anos após o relato da insônia.
Os resultados foram comparados
aos de um grupo muito maior, formado por 18.437.709 pessoas da mesma faixa
etária que não apresentavam histórico de problemas relacionados ao sono. Ao
analisar os dados acumulados ao longo de cinco anos, os cientistas identificaram
diferenças relevantes entre os dois grupos. Entre os pacientes diagnosticados
com insônia, a probabilidade de desenvolver câncer de mama de início precoce
foi mais de três vezes superior à observada entre aqueles que não tinham
distúrbios do sono. O estudo também encontrou risco quase duas vezes maior para
câncer de útero e câncer colorretal de início precoce.
Já em relação ao câncer de ovário, os pesquisadores verificaram um aumento aproximado de 50% no risco quando comparado ao grupo sem insônia. No resumo científico apresentado durante o congresso, os autores destacam que a associação foi observada principalmente em tumores hormonais de início precoce, mais frequentes em pacientes do sexo feminino.
Embora o estudo não estabeleça uma relação direta de causa e efeito, os resultados sugerem que alterações crônicas do sono podem representar um elemento relevante na avaliação do risco individual de câncer. Em comunicado divulgado pelos pesquisadores, os autores afirmam que os achados “sugerem que a perturbação do sono pode representar um fator de risco clinicamente relevante e potencialmente modificável na estratificação do risco de câncer de início precoce”.
Os resultados ganham
relevância em um contexto de aumento global dos diagnósticos de câncer em
pessoas mais jovens. Um estudo publicado anteriormente na revista científica
BMJ Oncology apontou que os casos de câncer em indivíduos com menos de 50 anos
cresceram 79% entre 1990 e 2019.
A análise identificou uma
expansão consistente da incidência da doença em diferentes regiões do mundo e
em diversos tipos de tumores. Com base nas tendências observadas nas últimas
décadas, os autores estimam que, até 2030, o número de novos casos de câncer em
adultos jovens poderá crescer 31%. As mortes relacionadas à doença nessa faixa
etária também tendem a aumentar, com projeção de alta de 21%. Segundo os
pesquisadores, pessoas na faixa dos 40 anos devem concentrar a maior parte
desse crescimento.
Embora fatores genéticos
continuem desempenhando papel importante no surgimento de cânceres em idades
mais precoces, especialistas ressaltam que aspectos relacionados ao estilo de
vida também influenciam significativamente o desenvolvimento da doença. Os
autores do estudo destacam que hábitos alimentares inadequados figuram entre os
principais fatores associados ao aumento do risco oncológico.
Dietas ricas em carne
vermelha, excesso de sal e baixo consumo de frutas, vegetais e produtos lácteos
estão entre os comportamentos apontados como potencialmente prejudiciais. Além
da alimentação, os pesquisadores lembram que outros fatores já amplamente
reconhecidos pela literatura científica continuam associados a uma maior
probabilidade de desenvolvimento de diversos tipos de câncer. Entre eles estão:
consumo de álcool; tabagismo; sedentarismo; obesidade; excesso de açúcar no
sangue; e distúrbios metabólicos. Nesse contexto, a insônia surge como mais um
possível elemento a ser considerado na avaliação dos riscos relacionados à
saúde.
Apesar dos resultados
expressivos, os próprios pesquisadores ressaltam que novas investigações serão
necessárias para compreender de forma mais detalhada os mecanismos biológicos
que podem explicar a relação entre o sono e o desenvolvimento do câncer. Uma
das hipóteses estudadas pela comunidade científica envolve o impacto da
privação crônica de sono sobre processos hormonais, inflamatórios e
imunológicos do organismo.
Alterações nesses sistemas podem influenciar a capacidade do corpo de reparar danos celulares e controlar o surgimento de células anormais. Os autores também defendem estudos adicionais para confirmar os achados em diferentes populações e identificar se intervenções voltadas à melhoria da qualidade do sono podem contribuir para reduzir o risco de câncer em adultos jovens. Enquanto novas evidências são produzidas, os resultados apresentados na ASCO reforçam a importância de encarar os distúrbios do sono não apenas como um problema de qualidade de vida, mas também como um aspecto potencialmente relevante para a prevenção de doenças de longo prazo.
Por O Correio de Hoje

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