segunda-feira, 8 de junho de 2026

SAÚDE MENTAL: Reprimir emoções pode afetar o corpo

Em meio à pressão por produtividade, respostas rápidas e a necessidade constante de estar bem, lidar com emoções deixou de ser parte natural da rotina para muitas pessoas. Sentir, especialmente sentimentos considerados negativos, passou a ser evitado, quase como se fosse possível seguir em frente sem olhar para o que incomoda. Mas o que é ignorado não desaparece. E, cada vez mais, especialistas alertam para os impactos desse comportamento na saúde mental e física.

A psicóloga Brenda Barra explica que esse processo não acontece por acaso. “As emoções possuem uma função. Elas comunicam necessidades e limites.” Quando essas emoções são ignoradas, o efeito não é o desaparecimento, mas o deslocamento. “Quando uma pessoa reprime constantemente aquilo que sente, a emoção não desaparece, ao contrário do que a gente pensa, ela apenas deixa de ser elaborada de uma forma consciente e vai para aquele lugar no inconsciente.”

Esse processo ajuda a explicar a ligação entre mente e corpo. “A psicossomática significa exatamente isso. Quando a gente não encontra uma representação psíquica, ela pode acabar encontrando uma expressão no corpo.”

Na prática, isso significa que conflitos emocionais podem se manifestar como sintomas físicos ou psicológicos persistentes.

A lista de sinais é extensa e, muitas vezes, pouco associada à origem emocional. “Existem aquelas pessoas que sentem dores de cabeça recorrentes, tensão muscular, distúrbio gastrointestinal, alteração no sono, fadiga, crise de ansiedade, taquicardia.”

Segundo a psicóloga, problemas dermatológicos e até doenças como hipertensão e fibromialgia também podem ser agravados por esse tipo de acúmulo emocional.

Parte dessa dificuldade em lidar com o que se sente está diretamente ligada ao contexto atual. “A sociedade contemporânea valoriza muito a produtividade, o que é rápido, o desempenho, e muitas vezes não há espaço para vivenciar o sofrimento.”

Nesse cenário, emoções consideradas negativas passam a ser evitadas, e não elaboradas.

A rotina acelerada reforça esse comportamento. Muitas pessoas recorrem ao excesso de trabalho, ao consumo constante de conteúdo ou às redes sociais como forma de evitar o contato com sentimentos mais difíceis. “Aquilo que não é elaborado, tende a permanecer atuando internamente”, afirma Brenda.

As redes sociais, nesse processo, também têm papel importante. “Elas frequentemente apresentam versões idealizadas da vida… reforçam a comparação, uma sensação que tá todo mundo feliz.”

Ao mesmo tempo, funcionam como distração imediata, oferecendo uma fuga rápida para momentos de desconforto emocional. “Muita gente hoje usa as redes sociais como refúgio… quando se torna um mecanismo permanente de fuga emocional, ele pode dificultar o autoconhecimento.”

A longo prazo, esse padrão cobra seu preço. O organismo não foi feito para sustentar a tensão contínua. “Uma pessoa que faz bastante isso pode estar mais vulnerável a ter ansiedade, depressão, dificuldade nos relacionamentos… sensação de esgotamento emocional.”

O que começa como tentativa de evitar dor pode acabar ampliando o sofrimento.

Diante desse cenário, o caminho não está em controlar ou eliminar emoções, mas em aprender a escutá-las. “Do ponto de vista clínico, não se trata de controlar ou eliminar as emoções, mas de aprender a escutar.”

Nomear o que se sente, buscar reflexão e não apenas distração, cultivar relações de apoio e, principalmente, buscar ajuda profissional são passos importantes.

Brenda reforça que o cuidado com a saúde emocional exige atenção ativa. “Não tenho como não indicar terapia… desenvolver essa consciência emocional é muito importante.”

Para ela, falar, repetir, elaborar, tudo isso faz parte do processo de entendimento.

No fim, a lógica é simples, mas muitas vezes ignorada: “As emoções não desaparecem porque são ignoradas.”

Elas permanecem e, de alguma forma, encontram um caminho para se expressar. Abrir espaço para sentir e compreender deixa de ser um luxo e passa a ser uma condição essencial para preservar a saúde mental e sustentar o equilíbrio no dia a dia.

Por Belita Lira, O Correio de Hoje 

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