Em meio à pressão por
produtividade, respostas rápidas e a necessidade constante de estar bem, lidar
com emoções deixou de ser parte natural da rotina para muitas pessoas. Sentir,
especialmente sentimentos considerados negativos, passou a ser evitado, quase
como se fosse possível seguir em frente sem olhar para o que incomoda. Mas o
que é ignorado não desaparece. E, cada vez mais, especialistas alertam para os
impactos desse comportamento na saúde mental e física.
A psicóloga Brenda Barra
explica que esse processo não acontece por acaso. “As emoções possuem uma
função. Elas comunicam necessidades e limites.” Quando essas emoções são
ignoradas, o efeito não é o desaparecimento, mas o deslocamento. “Quando uma
pessoa reprime constantemente aquilo que sente, a emoção não desaparece, ao
contrário do que a gente pensa, ela apenas deixa de ser elaborada de uma forma
consciente e vai para aquele lugar no inconsciente.”
Esse processo ajuda a explicar
a ligação entre mente e corpo. “A psicossomática significa exatamente isso.
Quando a gente não encontra uma representação psíquica, ela pode acabar
encontrando uma expressão no corpo.”
Na prática, isso significa que
conflitos emocionais podem se manifestar como sintomas físicos ou psicológicos
persistentes.
A lista de sinais é extensa e,
muitas vezes, pouco associada à origem emocional. “Existem aquelas pessoas que
sentem dores de cabeça recorrentes, tensão muscular, distúrbio
gastrointestinal, alteração no sono, fadiga, crise de ansiedade, taquicardia.”
Segundo a psicóloga, problemas
dermatológicos e até doenças como hipertensão e fibromialgia também podem ser
agravados por esse tipo de acúmulo emocional.
Parte dessa dificuldade em
lidar com o que se sente está diretamente ligada ao contexto atual. “A
sociedade contemporânea valoriza muito a produtividade, o que é rápido, o
desempenho, e muitas vezes não há espaço para vivenciar o sofrimento.”
Nesse cenário, emoções
consideradas negativas passam a ser evitadas, e não elaboradas.
A rotina acelerada reforça
esse comportamento. Muitas pessoas recorrem ao excesso de trabalho, ao consumo
constante de conteúdo ou às redes sociais como forma de evitar o contato com
sentimentos mais difíceis. “Aquilo que não é elaborado, tende a permanecer
atuando internamente”, afirma Brenda.
As redes sociais, nesse
processo, também têm papel importante. “Elas frequentemente apresentam versões
idealizadas da vida… reforçam a comparação, uma sensação que tá todo mundo
feliz.”
Ao mesmo tempo, funcionam como
distração imediata, oferecendo uma fuga rápida para momentos de desconforto
emocional. “Muita gente hoje usa as redes sociais como refúgio… quando se torna
um mecanismo permanente de fuga emocional, ele pode dificultar o autoconhecimento.”
A longo prazo, esse padrão
cobra seu preço. O organismo não foi feito para sustentar a tensão contínua.
“Uma pessoa que faz bastante isso pode estar mais vulnerável a ter ansiedade,
depressão, dificuldade nos relacionamentos… sensação de esgotamento emocional.”
O que começa como tentativa de
evitar dor pode acabar ampliando o sofrimento.
Diante desse cenário, o
caminho não está em controlar ou eliminar emoções, mas em aprender a
escutá-las. “Do ponto de vista clínico, não se trata de controlar ou eliminar
as emoções, mas de aprender a escutar.”
Nomear o que se sente, buscar
reflexão e não apenas distração, cultivar relações de apoio e, principalmente,
buscar ajuda profissional são passos importantes.
Brenda reforça que o cuidado
com a saúde emocional exige atenção ativa. “Não tenho como não indicar terapia…
desenvolver essa consciência emocional é muito importante.”
Para ela, falar, repetir,
elaborar, tudo isso faz parte do processo de entendimento.
No fim, a lógica é simples,
mas muitas vezes ignorada: “As emoções não desaparecem porque são ignoradas.”
Elas permanecem e, de alguma
forma, encontram um caminho para se expressar. Abrir espaço para sentir e
compreender deixa de ser um luxo e passa a ser uma condição essencial para
preservar a saúde mental e sustentar o equilíbrio no dia a dia.
Por Belita Lira, O Correio de Hoje

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