A Copa do Mundo de 2026
marcará a maior transformação da história do torneio desde a criação do formato
moderno. Pela primeira vez, a competição reunirá 48 seleções, ante as 32 que
disputaram as últimas sete edições. A mudança amplia o alcance geográfico do
principal evento do futebol mundial, mas também inaugura um debate sobre os
limites entre expansão comercial e preservação da essência esportiva do
torneio.
Sob a ótica institucional, a
decisão da Fifa responde a uma realidade difícil de ignorar. A globalização do
futebol acelerou a circulação de talentos, reduziu distâncias competitivas e
aumentou a ambição de países que antes estavam distantes do cenário internacional.
Hoje, seleções de diferentes continentes contam com atletas atuando nas
principais ligas do mundo, tornando natural a pressão por mais vagas e maior
representatividade na competição.
A ampliação também atende a
interesses econômicos. A Copa do Mundo tornou-se uma das propriedades
esportivas mais valiosas do planeta, movimentando bilhões de dólares em
direitos de transmissão, patrocínios, ingressos e licenciamento. Com mais
seleções e mais jogos, a Fifa amplia seu potencial de receitas e reforça a
presença global do torneio. Para o ciclo atual, a entidade projeta arrecadação
próxima de US$ 9 bilhões, o equivalente a cerca de R$ 50 bilhões.
O novo modelo, entretanto,
altera profundamente a dinâmica da competição. O Mundial de 2026 terá 104
partidas distribuídas ao longo de 39 dias, contra 64 jogos em aproximadamente
um mês no formato anterior. Apenas a fase de grupos contará com 72 confrontos,
número superior ao total de partidas de uma Copa tradicional. Na prática,
quando a edição de 2022 teria terminado, ainda restariam mais nove dias de
disputa pela frente.
O aumento do calendário cria
dúvidas sobre a capacidade do público de acompanhar o evento com a mesma
intensidade observada em edições anteriores. Historicamente, a Copa construiu
sua força a partir da percepção de que cada partida era um acontecimento singular.
Mesmo confrontos entre seleções de menor expressão atraíam atenção global por
fazerem parte de uma competição relativamente curta e concentrada. Com mais de
uma centena de jogos, especialistas questionam se essa sensação de
exclusividade poderá ser preservada.
As preocupações mais
relevantes, porém, estão ligadas ao aspecto esportivo. O novo formato prevê que
os dois primeiros colocados de cada grupo avancem diretamente, acompanhados
pelos oito melhores terceiros colocados. Isso significa que parte da classificação
dependerá de comparações entre equipes que enfrentaram adversários distintos,
situação que tende a ampliar o peso do sorteio na definição dos classificados.
Outro ponto de debate é a
desigualdade técnica entre os participantes. Embora a evolução do futebol
internacional tenha reduzido diferenças históricas, a ampliação das vagas
inevitavelmente abrirá espaço para seleções menos experientes em competições de
alto nível. Em alguns casos, uma equipe favorita poderá encaminhar sua
classificação com uma vitória larga sobre um adversário tecnicamente inferior,
criando desequilíbrios difíceis de corrigir ao longo da fase inicial.
A própria estratégia das
seleções pode ser afetada. Como três equipes de cada grupo terão chances
concretas de avançar, aumenta o incentivo para campanhas mais conservadoras. Em
determinados cenários, uma combinação de empates pode ser suficiente para alcançar
a fase eliminatória. O risco, segundo críticos do modelo, é a multiplicação de
jogos marcados por cautela excessiva e menor busca pela vitória.
A mudança também impõe
desafios logísticos sem precedentes. Em 2026, Estados Unidos, México e Canadá
dividirão a organização do torneio. Já a edição de 2030 será distribuída entre
países da América do Sul, Europa e África. A tendência sugere que futuras Copas
dependerão cada vez mais de candidaturas conjuntas, uma vez que poucos países
dispõem da infraestrutura necessária para receber um evento com 48 seleções.
Por O Correio de Hoje


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