O acordo preliminar firmado
entre Estados Unidos e Irã para interromper a guerra que há meses desestabiliza
o Oriente Médio foi recebido com alívio por governos, organismos multilaterais
e mercados financeiros, mas expôs divergências entre Washington e Israel e
abriu uma nova etapa de negociações cercada por incertezas políticas e
estratégicas.
Anunciado após semanas de
negociações conduzidas com mediação do Paquistão, o entendimento prevê um
cessar-fogo inicial de 60 dias, a reabertura do Estreito de Ormuz e o início de
discussões sobre temas considerados centrais para a estabilidade regional,
incluindo o programa nuclear iraniano, o levantamento de sanções econômicas e o
desbloqueio de ativos financeiros de Teerã no exterior.
O entendimento produziu
efeitos imediatos na economia global. A perspectiva de retomada do fluxo de
petróleo e gás natural pelo Estreito de Ormuz, corredor por onde transitam
aproximadamente 20% das exportações mundiais desses produtos, reduziu temores sobre
a oferta global de energia e provocou forte queda nos preços internacionais do
petróleo.
No campo diplomático,
entretanto, a reação foi mais complexa. Embora Israel tenha participado das
operações militares que deram origem à escalada do conflito, o governo do
primeiro-ministro Benjamin Netanyahu demonstrou cautela diante dos termos
negociados entre Washington e Teerã. Integrantes do governo israelense
manifestaram reservas ao acordo e sinalizaram que a política de segurança do
país não será alterada automaticamente pelo entendimento firmado entre os dois
rivais.
As tensões ficaram evidentes
menos de 24 horas após o anúncio do memorando de entendimento, quando forças
israelenses realizaram um novo bombardeio no sul do Líbano. O episódio reforçou
dúvidas sobre a capacidade de o acordo produzir estabilidade imediata em todas
as frentes do conflito.
Em pronunciamento, Netanyahu
procurou minimizar os atritos com a administração americana, mas reafirmou que
Israel continuará tomando decisões de forma autônoma em questões relacionadas à
sua segurança nacional.
“Trump e eu nem sempre
concordamos”, afirmou o premiê. “Ele é o presidente dos Estados Unidos e eu sou
o primeiro-ministro de Israel. Sou responsável pelos interesses de segurança de
Israel.”
O líder israelense também reiterou que seu governo não pretende retirar tropas do sul do Líbano, da Faixa de Gaza ou de áreas ocupadas na Síria enquanto considerar necessário manter zonas de segurança.
A postura foi reforçada por
integrantes do gabinete. O ministro da Defesa, Israel Katz, advertiu que Israel
responderá com força caso o Irã ou seus aliados retomem ações militares. Já o
ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, afirmou que o acordo firmado
entre Washington e Teerã não cria obrigações para o governo israelense.
A oposição israelense também
reagiu de forma crítica. O ex-primeiro-ministro Naftali Bennett classificou o
entendimento como um risco para a segurança do país, refletindo o ambiente de
polarização interna que cerca a condução da guerra.
A resistência de setores
políticos israelenses evidencia uma mudança no relacionamento entre Netanyahu e
o presidente americano Donald Trump. Ao longo do conflito, ambos mantiveram
alinhamento estratégico, mas divergências sobre a forma de encerrar a guerra
tornaram-se mais visíveis nas últimas semanas.
Trump chegou a afirmar que
Netanyahu deveria reconhecer o papel desempenhado pelos Estados Unidos na
negociação com Teerã. Segundo o presidente americano, a contenção do programa
nuclear iraniano continua sendo um dos pilares do acordo.
“O Irã não terá armas
nucleares, nem hoje nem amanhã”, declarou Netanyahu, em tentativa de demonstrar
convergência com Washington sobre o principal tema de segurança da região.
Do lado iraniano, a reação
misturou celebração e cautela. O presidente Masoud Pezeshkian classificou o
entendimento como uma conquista importante para o Oriente Médio. Autoridades
militares também saudaram o acordo como uma vitória diplomática e estratégica.
Ao mesmo tempo, integrantes do
governo enfatizaram a desconfiança acumulada após décadas de confrontos e
negociações fracassadas com os Estados Unidos.
O ministro das Relações
Exteriores, Abbas Araghchi, lembrou que Teerã ainda guarda reservas em relação
ao compromisso americano de cumprir integralmente futuros entendimentos, em
referência à retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear firmado em 2015 e
abandonado por Trump em seu primeiro mandato.
Os próximos 60 dias serão
dedicados justamente à tentativa de transformar a trégua em um acordo
permanente. Entre os temas mais sensíveis estão o enriquecimento de urânio pelo
Irã, mecanismos de inspeção internacional, garantias de segurança para Israel e
a remoção gradual de sanções econômicas impostas ao país persa.
Apesar das incertezas, a
reação internacional foi amplamente favorável. Países do Golfo que estiveram
expostos ao conflito, como Arábia Saudita, Catar, Bahrein e Emirados Árabes
Unidos, manifestaram apoio ao entendimento. O Egito avaliou que o acordo pode
criar condições para uma nova fase de cooperação regional e fortalecer esforços
diplomáticos relacionados à crise em Gaza.
Também houve manifestações
positivas da Organização das Nações Unidas. O secretário-geral da ONU, António
Guterres, descreveu o acordo como um passo crucial rumo a uma solução pacífica.
A China, principal importadora
mundial de energia e uma das economias mais dependentes da estabilidade do
Estreito de Ormuz, saudou o entendimento e defendeu o rápido restabelecimento
da livre circulação marítima.
Embora a reação internacional
indique apoio amplo à iniciativa, diplomatas e analistas alertam que o
entendimento permanece frágil. O histórico de desconfiança entre Washington e
Teerã, as divergências entre Estados Unidos e Israel e a complexidade dos temas
em negociação sugerem que os próximos dois meses serão decisivos para
determinar se o acordo representará o início de uma nova fase de estabilidade
regional ou apenas mais uma pausa temporária em um conflito de longa duração.
Por O Correio de Hoje
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