Com base em dados da Pnad
Contínua, do IBGE, o levantamento mostra que jovens em profissões mais
suscetíveis à automação — como serviços de informação e atividades financeiras
— apresentam atualmente uma probabilidade de emprego quase 5% menor em comparação
ao período anterior à disseminação da IA generativa.
A análise compara dois
momentos: 2022, antes da popularização de ferramentas como o ChatGPT, e 2025,
já sob influência mais ampla dessas tecnologias. Ao observar grupos de
trabalhadores com perfis semelhantes, o estudo identificou que aqueles mais
expostos à IA passaram a perder mais postos de trabalho do que os demais.
Além da empregabilidade, a
renda também foi afetada. Segundo Duque, os trabalhadores mais expostos
registraram queda de quase 7% nos rendimentos. O movimento está associado à
capacidade da IA de executar tarefas padronizadas e operacionais, típicas de cargos
iniciais, que historicamente funcionam como porta de entrada para o mercado.
“Os empregos de entrada no mercado de trabalho, que a IA consegue fazer melhor e mais barato, são os mais substituíveis”, afirma o pesquisador. O impacto, por outro lado, é limitado entre trabalhadores mais experientes. De acordo com o estudo, funções exercidas por profissionais mais velhos tendem a envolver tomada de decisão e atividades menos padronizadas, áreas em que a IA ainda apresenta limitações relevantes.
Levantamentos complementares
do FGV Ibre, com base em metodologia da Organização Internacional do Trabalho
(OIT), indicam que cerca de 30 milhões de brasileiros — o equivalente a 29,6%
da população ocupada — estavam em ocupações com algum grau de exposição à IA
generativa no terceiro trimestre do ano passado. Desses, aproximadamente 5,2
milhões estavam em nível elevado de risco.
Dados atualizados pela consultoria 4intelligence apontam tendência semelhante. Segundo o economista Bruno Imaizumi, cerca de 30,5% dos trabalhadores podem ser afetados pela tecnologia, sendo que 5,3% enfrentam alto risco de automação total das tarefas. O fenômeno, segundo ele, está ligado à substituição de rotinas repetitivas, especialmente em posições iniciais.
O cenário não é exclusivo do Brasil. Pesquisa da Universidade de Stanford mostra que trabalhadores em início de carreira nos Estados Unidos também registraram perdas relevantes. Entre desenvolvedores de software, por exemplo, o nível de ocupação caiu quase 20% entre o fim de 2022 e setembro de 2025, mesmo com o crescimento geral do emprego na economia.
Para Duque, os efeitos de longo prazo ainda são incertos, mas levantam preocupação. A entrada mais difícil no mercado pode resultar em menor acúmulo de experiência, salários mais baixos ao longo da trajetória profissional e impactos sobre produtividade e poupança futura dessa geração.
“Se os jovens já começam no mercado de trabalho com maiores dificuldades, isso tem consequências imprevisíveis”, afirma o pesquisador.
Por O Correio de Hoje

Nenhum comentário:
Postar um comentário