
Sem tempo de tevê, sem alianças partidárias, com pouco dinheiro para fazer campanha e um largo histórico de ofensas a minorias e a mulheres. Jair Bolsonaro (PSL) parecia reunir todas as características de um candidato radical demais para ser levado a sério, mas a sua aposta se revelou acertada não apenas para a eleição presidencial, onde conseguiu mais de 46% dos votos. Na disputa por uma vaga no Congresso Nacional, quem abraçou o capitão reformado do Exército conseguiu resultados surpreendentes.
Os brasileiros elegeram neste ano uma bancada verdadeiramente bolsonarista.
Basta olhar para São Paulo. Os dois candidatos que mais votos receberam são do
PSL: Eduardo Bolsonaro, filho do presidenciável, e a ex-repórter Joice
Hasselmann. Ele teve mais 1,7 milhão de votos. E ela, conhecida por espalhar
boatos na internet, 1 milhão. A lista segue: o terceiro mais votado foi Celso
Russomanno (PRB), comunicador ligado à Igreja Universal do Reino de Deus. Em
seguida, vem Kim Kataguiri (DEM), um dos líderes do Movimento Brasil Livre, que
mobilizou manifestações de rua pelo impeachment
da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Depois vêm Tiririca (PR) e Capitão
Augusto (PRB), membro destacado da bancada da bala.
O
maior Estado da federação também elegeu, para o Senado e com ampla margem,
Major Olímpio Gomes (PSL), um dos mais próximos aliados de Bolsonaro e
responsável por seu plano de Governo na área de segurança pública. A segunda
vaga ficou com a tucana Mara Gabrilli (PSDB), o que significa um forte revés
para o PT. Eduardo Suplicy, a aposta do partido para voltar ao Senado por São
Paulo, ficou em terceiro lugar.
"Houve
um giro conservador no Brasil porque o eleitor médio mudou. Nos governos do
PT-PMDB, ele era de centro esquerda. Agora, virou para a centro-direita e
queria ver caras novas. Quem falou contra o sistema, quem pregou mudanças e
teve Bolsonaro como cabo eleitoral, obteve sucesso", avaliou o cientista
político Ricardo Caldas, professor da Universidade de Brasília (UnB).
Em
Minas Gerais, no segundo colégio eleitoral do país, nova vitória de um nome
conservador. O jornalista Carlos Viana (PHS), que conduz programas policiais na
rede Record e é
conhecido como o "Datena de Minas Gerais", conseguiu uma das cadeiras
para o Senado. Minas se torna um caso ainda mais emblemático em razão da acachapante
derrota da ex-presidenta Dilma Rousseff, que disputava o posto de senadora.
Terminou numa distante quarta colocação. O deputado federal mais votado pelos
mineiros também é do PSL, o partido de Bolsonaro. Marcelo Alvaro Antonio teve
228.000 votos e outro de sua legenda, Cabo Junio Amaral, 157.000.
No
Rio de Janeiro, o PSL de Bolsonaro elegeu quatro dos dez deputados mais
votados: Helio Fernando Barbosa Lopes, Carlos Jordy, Delegado Antônio Furtado e
Luiz Lima. Também no Rio, outro filho de Bolsonaro, Flávio, foi eleito como o
senador mais votado e seguido por seu aliado, Arolde de Oliveira (PSD). Na
esfera estadual, ainda conseguiu levar o seu candidato ao Governo, Wilson
Witzel (PSC), ao segundo turno, como o mais votado, com 41,2% dos votos.
No
Rio Grande do Sul, seu principal aliado era Onyx Lorenzoni (DEM), que é cotado
para comandar a Casa Civil em um eventual governo Bolsonaro. Onyx foi reeleito
para seu quinto mandato, com a sua melhor votação. Ainda elegeu mais dois
deputados: Bibo Nunes e Sanderson Federal, políticos até então inexpressivos.
No Paraná, foram mais dois deputados federais Felipe Francischini e Filipe
Barros.
Outro
beneficiado pela onda Bolsonaro foi Luciano Bivar, o suplente de deputado que
entregou o partido para o militar concorrer ao Palácio do Planalto. Presidente
de direito do PSL, Bivar abriu mão do comando da legenda e conseguiu garantir
sua eleição em um Estado, Pernambuco, que costumava eleger políticos
progressistas. Pastor Eurico (PATRI), outro propagador da ideologia
bolsonarista, também foi eleito. Em Goiás, mais onda conservadora: o federal
mais votado, Delegado Waldir, é do PSL e a mesma coligação, ainda elegeu Jorge
Kajuru (PRP) ao Senado.
No
Pará e na Paraíba os dois principais cabos eleitorais do presidenciável também
chegaram à Câmara: respectivamente Éder Mauro (PSD) e Julian Lemos (PSL).
‘As candidatas do Bolsonaro’
O
Distrito Federal é outro bom exemplo da força da onda bolsonarista que varreu o
Brasil neste domingo. Do nanico PRP, Bia Kicis fez campanha apresentando-se
apenas como "a Federal do Bolsonaro". Recebeu mais de 85.000 votos e
foi a terceira que mais apoios obteve. E o general Paulo Chagas, que concorria
ao Governo, não tinha nem 2% nas pesquisas. Terminou em quarto colocado, com
7%.
No
Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul, uma situação semelhante. Os dois Estados
têm onze parlamentares cada um. O PSL de Bolsonaro conseguiu eleger três
representantes em cada um deles. Duas figuras até recentemente desconhecidas da
política, a ex-juíza Selma Arruda, do Mato Grosso, e empresária Soraya
Thronicke, de Mato Grosso do Sul, chegaram ao Senado só ostentando o apoio que
receberam do capitão reformado do Exército.

Nenhum comentário:
Postar um comentário