Equipes de emergência,
militares e moradores mantêm as buscas por sobreviventes do terremoto
de magnitude 7,4 que atingiu o oeste da Colômbia na
manhã de segunda-feira, 10. O número de mortos chegou a pelo menos 250 nesta
quarta-feira 12, enquanto milhares de pessoas ficaram feridas ou continuavam
desaparecidas, de acordo com balanços divulgados por autoridades e organismos
de ajuda.
O epicentro foi localizado nas
proximidades de San José del Palmar, no departamento de Chocó, região marcada
pela pobreza, pela dificuldade de acesso e pela atuação de grupos armados. Os
danos, porém, alcançaram centros urbanos como Cali, Pereira e Manizales, onde
edifícios residenciais, hospitais e estruturas públicas desabaram ou foram
interditados.
A divergência entre os
balanços ocorre porque os números estão sendo atualizados por diferentes
governos locais e equipes de resgate. As dificuldades de comunicação e
deslocamento em Chocó também retardam a avaliação dos estragos. Autoridades
esperam que a quantidade de vítimas aumente à medida que os socorristas avancem
nos locais mais afetados.
Mais de 200 pessoas
permaneciam desaparecidas, segundo estimativas das equipes que trabalham nos
escombros. Somente em Cali, dezenas de construções desabaram e ao menos 37
pessoas haviam sido retiradas com vida. Em Pereira, uma mulher de 32 anos foi
resgatada depois de permanecer soterrada.
O Serviço Geológico Colombiano
registrou cerca de 130 réplicas desde o abalo principal, com magnitudes entre
0,6 e 4,8. Os tremores secundários aumentam o risco de novos desabamentos e
obrigam as equipes a interromper as operações em determinados momentos.
O Serviço Geológico dos
Estados Unidos (USGS) informou que o terremoto ocorreu às 7h34, no horário
local, a aproximadamente cinco quilômetros de San José del Palmar. A agência
calculou uma profundidade de 107 quilômetros e atribuiu o evento principalmente
a uma falha de deslizamento lateral, na qual dois blocos da crosta terrestre se
deslocam horizontalmente.
A profundidade intermediária
permitiu que as ondas sísmicas fossem sentidas em uma área extensa, inclusive
em regiões da Venezuela, do Equador e do Panamá. Na Colômbia, o movimento do
solo atingiu tanto cidades próximas ao epicentro quanto centros urbanos
localizados a distâncias maiores.
O governo colombiano declarou estado de calamidade pública e instalou em Bogotá um posto de comando para coordenar resgates, distribuição de alimentos, atendimento médico e levantamento dos prejuízos. Militares foram enviados às áreas atingidas, enquanto hospitais receberam reforços diante do aumento da demanda.
Além da magnitude do
terremoto, pesquisadores apontam que as características dos edifícios
contribuíram para a dimensão dos danos. Uma prática comum na construção
residencial colombiana é a utilização de paredes de concreto armado com
espessura entre sete e dez centímetros e apenas uma camada de aço.
Essas paredes têm a função de
resistir às forças laterais produzidas por ventos e terremotos. Quando possuem
pouca espessura e quantidade reduzida de aço, porém, podem concentrar a tensão
em uma única fissura. A ruptura das barras de reforço pode causar a perda da
capacidade de sustentação e levar ao colapso da estrutura.
O uso de telas de arame
eletrossoldadas também gera preocupação porque esse material pode se romper
rapidamente quando submetido a deformações. A menor espessura dificulta ainda a
instalação do chamado confinamento, composto por peças de aço colocadas nas
extremidades das paredes para reduzir o esmagamento do concreto.
Uma pesquisa realizada em 2018
com nove edifícios de Cali identificou que 90% possuíam paredes com apenas uma
camada de reforço. Em 30% das construções examinadas, a espessura era igual ou
inferior a dez centímetros.
Ensaios realizados por
pesquisadores de universidades colombianas no Laboratório de Engenharia Sísmica
e Dinâmica Estrutural da Escola Politécnica Federal de Lausanne, na Suíça,
também indicaram baixa resistência dessas estruturas a tremores de maior intensidade.
Mesmo quando havia aço suficiente, a espessura limitada reduzia a capacidade de
deformação sem colapso.
O problema não está restrito à
Colômbia. Técnicas semelhantes foram utilizadas em outros países da América
Latina e também eram admitidas em normas de construção da Austrália. As regras
australianas foram revistas em 2018, depois que o terremoto de Christchurch, na
Nova Zelândia, ampliou o debate internacional sobre paredes finas de concreto.
Em Christchurch, um abalo de
magnitude 6,3 matou 185 pessoas em 2011. Edifícios de concreto projetados
conforme normas posteriores aos anos 1980 tiveram melhor desempenho. Algumas
construções mais antigas, porém, desabaram devido à baixa quantidade de aço e à
concentração de tensão em paredes estreitas.
Na Colômbia, a reconstrução
deverá exigir não apenas recursos para repor moradias e equipamentos públicos,
mas também uma revisão das técnicas utilizadas no mercado imobiliário. O custo
da recuperação ainda não foi calculado, mas milhares de casas foram destruídas
ou danificadas.
A tragédia também se soma aos
terremotos que atingiram a Venezuela em junho, deixando milhares de mortos e
dezenas de milhares de edifícios afetados. Especialistas afirmam que ainda é
cedo para estabelecer uma relação direta entre os eventos, embora a movimentação
de uma falha possa transferir tensão para sistemas próximos.
Entre os sobreviventes dos
dois desastres estão os irmãos venezuelanos Winder e Deivi Delfín, de 15 e 17
anos. Eles perderam a mãe, o irmão mais novo e a avó nos terremotos de junho e
se mudaram para Cali, onde o pai, Deivid Delfín, trabalha como barbeiro.
Na manhã de segunda-feira, os
adolescentes saíram correndo da casa ao perceberem o novo tremor. O pai estava
fora e voltou para procurá-los. “Comecei a chorar e tudo mais, porque fiquei
com medo por causa de tudo o que eu tinha vivido e do que meus filhos tinham
vivido. Não quero que nada aconteça com meus filhos”, relatou.
Depois do abalo, os irmãos se
recusaram a retornar à residência. “Agora estamos do lado de fora de casa,
apenas sentados aqui. Mas estamos bem. Estamos aqui, vivos”, afirmou Delfín. O
relato resume a dimensão humana de um desastre que, além das perdas imediatas,
recoloca a segurança das construções no centro da reconstrução colombiana.
Por O Correio de Hoje
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