O presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, declarou nesta quarta-feira que considera encerrado o
acordo provisório de cessar-fogo com o Irã, após uma nova troca de ataques
entre os dois países. A declaração foi feita durante a cúpula da Organização do
Tratado do Atlântico Norte (Otan), em Ancara, na Turquia, poucas horas depois
de forças americanas bombardearem mais de 80 alvos iranianos e de Teerã
responder com ataques contra bases militares dos EUA no Bahrein e no Kuwait.
“Para mim, acho que acabou. No
que me diz respeito, isso é apenas perda de tempo”, afirmou Trump. Apesar da
declaração, o presidente disse que não pretende impedir a continuidade das
negociações diplomáticas entre representantes dos dois países.
“Eles podem conversar, mas
acho que estão perdendo tempo. Eles são lixo, são pessoas doentes, são
governados por pessoas doentes e são pessoas cruéis e violentas. E se tivessem
uma arma nuclear, a usariam”, declarou.
A nova escalada ocorre poucos
dias após Washington suspender uma autorização temporária que permitia ao Irã
vender petróleo bruto e derivados no mercado internacional. A licença, emitida
pelo Departamento do Tesouro em 22 de junho, suspendia parcialmente sanções
econômicas e autorizava exportações até 21 de agosto. Com a revogação, os
Estados Unidos estabeleceram o dia 17 de julho como prazo para encerramento das
operações comerciais em andamento.
Segundo o Comando Central dos
Estados Unidos (Centcom), a ofensiva teve como objetivo impor custos ao Irã
após ataques contra embarcações comerciais que cruzavam o Estreito de Ormuz,
uma das principais rotas marítimas para o transporte mundial de petróleo e gás
natural.
Os bombardeios atingiram mais
de 80 alvos, incluindo sistemas de defesa aérea, centros de comando e controle,
radares costeiros, sistemas de vigilância, baterias de mísseis superfície-ar,
mísseis de cruzeiro antinavio, locais de lançamento de drones e mais de 60
embarcações utilizadas pela Guarda Revolucionária Iraniana.
Em comunicado, o Centcom
afirmou: “[As Forças Armadas estão] preparadas para responsabilizar o Irã
quando o acordo não for cumprido ou respeitado.”
A imprensa estatal iraniana
informou explosões em diversas regiões do país, entre elas Bandar Mahshahr,
onde um integrante da Guarda Revolucionária morreu. Também foram registrados
ataques próximos ao complexo nuclear de Bushehr.
Em resposta, a Guarda Revolucionária anunciou ataques contra instalações militares dos Estados Unidos no Bahrein e no Kuwait e informou ter derrubado um drone americano MQ-9 que, segundo Teerã, tentava interferir nas operações militares.
O governo do Kuwait informou
ter interceptado dois mísseis balísticos e 13 drones iranianos. Parte da
infraestrutura elétrica do país sofreu danos após estilhaços atingirem linhas
de transmissão. Bahrein, sede da 5ª Frota da Marinha dos Estados Unidos, e
Kuwait, que abriga tropas do Exército americano, emitiram alertas de mísseis
durante a manhã.
O Quartel-General Central
Khatam al-Anbiya, principal comando militar conjunto do Irã, classificou a
ofensiva americana como “um ato flagrante de agressão”, prometeu uma “resposta
devastadora” e afirmou que o país não permitirá interferência dos Estados Unidos
na administração do Estreito de Ormuz.
O Ministério das Relações
Exteriores do Irã declarou que os ataques americanos e a retomada das
restrições ao petróleo tornaram “ineficaz” o acordo firmado entre os dois
países no mês passado. Segundo o governo iraniano, a decisão viola o
entendimento que previa 60 dias de negociações para um acordo permanente.
O presidente do Parlamento
iraniano, Mohammad Bagher Qalibaf, também responsabilizou Washington pelo
agravamento da crise. “A era da intimidação e da extorsão acabou. Isso não leva
a lugar nenhum. Nós não recuamos”, escreveu em publicação na rede X.
O vice-ministro das Relações
Exteriores, Kazem Gharibabadi, afirmou que Teerã responderá com “ações
decisivas” às medidas adotadas pelos Estados Unidos. Grande parte da tensão
entre Washington e Teerã continua concentrada no Estreito de Ormuz, corredor marítimo
por onde, antes da guerra, transitava aproximadamente um quinto do petróleo e
do gás natural comercializados mundialmente.
Como parte do acordo
provisório firmado entre os dois países, navios poderiam atravessar a hidrovia
durante 60 dias sem pagamento de tarifas. O Irã, porém, passou a defender a
cobrança de taxas futuras para embarcações que utilizassem a rota, medida rejeitada
pelos Estados Unidos e por países árabes do Golfo.
Os ataques mais recentes
ocorreram após três embarcações serem atingidas na região. Um petroleiro
incendiou-se próximo à costa de Omã, enquanto outras duas embarcações sofreram
danos, segundo o centro britânico Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido
(UKMTO). A televisão estatal iraniana informou que o navio incendiado foi
atacado após ignorar advertências, sem assumir oficialmente a responsabilidade.
Apesar da ruptura anunciada
por Trump, autoridades americanas afirmam que as negociações diplomáticas não
foram encerradas definitivamente. Um integrante do governo dos EUA informou que
representantes dos dois países continuam trabalhando para buscar um acordo
permanente, embora reconheça que as perspectivas se tornaram ainda mais
incertas.
Entre os principais pontos de
impasse estão o programa nuclear iraniano, o desbloqueio de ativos financeiros
do Irã, o futuro das exportações de petróleo e a definição das regras para
navegação no Estreito de Ormuz.
As conversas haviam sido
retomadas na semana anterior, mas voltaram a ser interrompidas em razão das
cerimônias fúnebres do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei. Segundo o
governo do Catar, mediador das negociações, uma nova rodada deverá ser marcada
após o encerramento dos funerais.
A nova escalada militar teve
impacto imediato no mercado internacional. O petróleo Brent chegou a subir mais
de 6%, aproximando-se de US$ 79 por barril em Londres, enquanto bolsas
internacionais registraram queda.
Dados do setor marítimo
indicaram que pelo menos quatro navios petroleiros e transportadores de gás
desistiram de atravessar o Estreito de Ormuz após a intensificação dos
confrontos, aumentando as preocupações sobre a segurança da principal rota
mundial de exportação de petróleo.
Por O Correio de Hoje
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